domingo, 5 de junho de 2011
A enxada cheia de metafísica
Mais uma morte no campo. A prática de esquecer vem nos aliciar, enterrando em cova mais funda a enxada que restava, nossa última esperança de conhecer o que existe sob nossos pés, o sentido de cada passo que se sucede. Jaz esquecida a lâmina que decepou nossa orelha (nossa, pois aos mortos não fará falta). Era um pedaço de mim que caiu por terra, que se perdeu em lama vermelha, e mesmo assim não me interessa a arma da lei de uns sós. Ela aparecerá mais adiante, quando outro membro for decepado. Meu também, pois a verdade é que tenho bilhões de orelhas. E o silêncio apenas cresce, avança por roçados, descampados e cidades, pelos céus, elevadores; das alturas já não vem promessas, nem trovões. Não há pão nem palavra para preencher esse espaço. O lapso na memória não pode mais ser vivido, é silêncio. Onde consigo uma enxada que desfaça esse encanto, que abra e revolva essa terra se ainda for tempo? Não há enxada. Cavando com as próprias mãos, nervos e ossos, Piano busca a música que deu princípio a esse sonho vão. Mas a melodia, resto orgânico do homem, apodrece nessa terra velha e ressecada de tanta amargura.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Eu lírico
Ainda que as vozes que escuto venham de quartos subterrâneos, sei que elas são ecos sobreescritos de muitos séculos e isso, de alguma forma, serve para transformar o presente em memória arruinada.
Com um olho, vejo o destino típico da nossa raça e o trabalho, deus maior, esperando pela nossa redenção. Com o outro vejo a vaga sombra de um ser outro, do amor que não deixa, da pessoa que eu deveria ser, mais do que troços desgarrados.
Onde encontrarei meu eu lírico? Como desvendar esse ser que se constitui fragilmente numa sala de espelhos? Sendo autômatos, por que se movem da mesma forma essas figuras envidraçadas? Se são reais, por que seus olhos se deixam convencer pela ilusão de profundidade infinita?
O que a poesia de um desconhecido tem a ver com cada um de nós? A pergunta feita a uma turma de jovens internos de um centro reformatório de certa capital não surpreende nem causa confusão. O José de Drummond que se salve como puder e, se puder, que se livre da voz diabólica que ressoa "E agora?". Pois a literatura não oferece seu pomo a todos, não sem pedir algo em troca.
(Pensei que pelo menos o tempo dos enclausurados poderia ser disputado, mas os desejos pulsam rápidos, não deixando espaço para o outro... mesmo que este outro seja o"eu".)
Se isso não está dado, convém ir roubar, vivendo a utopia nas palavras de Jameson: "a poesia não deixa de existir quando acaba; ela só deixa de existir quando é plena".
Vivendo também ecos dessa vida da poesia na mística dos professores que se formam na luta:
"Hoje, ninguém mais sabe tocar a chaga aberta. Mas todos têm uma chaga aberta."
(turma de Licenciatura em educação no campo - Veranópolis)
- JOSÉ
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Trauma da palavra
POROS
"um silêncio verde" - Paul Celan
O
verde,
sua pele
ácida. Tocar
os poros
do verde, florir
metálico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, faisões
de cegueira.
Jóias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas mãos tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e não há mar,
nem pão, nem página.
Alucino-te
ao mirar-me
no silêncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacrais afogam-me
em tua lágrima
e se fecha a porta
esquerda.Toda palavra
me fere com sua dor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.
De pouco vale a sentença pronunciada de um trauma, ainda que fictício. Pouco ou nada, pois, como os traumas, a ficção guarda o segredo de sua existência no mais profundo vão da alma. Ou no trabalho dos sonhos.
E de que forma a racionalização é cúmplice do disfarce, ousaremos investigar?
Poderemos tão somente esquecer?
O que temos nos basta?
Se estes versos, por um lado, não seguem uma métrica padrão, ficamos reticentes quanto ao ritmo que impõem por força da retalhação das sentenças gramaticais. Assim que, logo nos primeiros versos, nos deparamos com um sintagma nominal cindido - artigo definido, em um verso, e seu substantivo, no seguinte. Vemos aí a experiência do sentido, não puramente perdida ou aspirada, mas, tampouco, abundante. O artigo isolado no primeiro verso é uma fratura na expressão, que fica praticamente desprovida de valor semântico, fratura não hesitante, já que não é acompanhada de qualquer sinal de pausa, mas verdadeiramente irônica; talvez, cínica, como se ostentasse no topo do poema a evidência da fragilidade da palavra, a sua impotência como significação, ou, furiosamente, a cabeça do vencido.
Porém o trofél erguido não está completamente sem vida. Vejamos...
É ensaiada, em seguida, uma série de imagens; a primeira é a da cor verde, que vem imediatamente a nós, como só as ideias chamadas simples e naturais, mas que é seguida de uma pausa (vírgula) que demanda apreciação. Aqui a palavra respira. Mansamente, transmite um significado inofensivo, calmo e indiscutível.
A apreciação imposta pela vírgula não cabe apenas a nós, como vemos no 3º verso, "sua pele". Há um eu-lírico no avesso da palavra "sua". Esta já é uma palavra mais grave, que reorganiza duas vezes o poema: além da coisa em si, existe o eu; além do eu, o outro. "sua" reorganiza, mas não se impõe; ligeiramente, anuncia outra ideia, "pele", que nos traz novamente uma ideia niveladora do mundo, como objeto sensível. O sentido de "pele" pode se aprofundar em "ácida", que se apresenta como quebra na cadência de imagens comuns estabelecida até então. O adjetivo "ácida" desperta o sentido adormecido de "pele", que pode, no poema, sentir, como toda pele ideal, ou ser fonte de sensações. Ainda assim, a"pele ácida" permanece reificada, disponível como o mundo sensível, mesmo que estranhada pela contravenção de sua acidez. As palavras se sucedem com mais liberdade no campo semântico franqueado entre "pele" e "verde", até nova pausa propiciando a apreciação da expressão ferina "florir metálico".
Este estranhamento já nos é familiar. Mas, ainda mais do que em "ácida", o adjetivo "metálico" transforma seu substantivo em algo alheio a sua natureza, suspeito e aflitivo. O sentido da palavra soergue-se da natureza conhecida, ou pretensamente segura, para perturbar o refugio - o verde que engedra e está florindo não deve ser o que se espera. Há algo aflitante que não será nomeado, mas cuja percepção oscila durante o poema como voz que se ouve "de asa e sombra" - ou seja, aberta e sonora ou fechada e surda. O que poderia florir, ou vicejar, foi subsumido ou desfigurado pelo adjetivo "metálico".
Lançando mão de uma maior arbitrariedade, podemos assumir que o "florir metálico" carrega uma conotação que existe à revelia da lei interna do poema. Esse sentido não foi totalmente apagado pelo texto, portanto, precisamos lidar com ele. Trata-se da carga simbólica sedimentada pela Modernidade ao sentido mágico que já havia, tradicionalmente, relacionado ao que é metálico, desde o mistério dos alquimistas até o poder assimilador e reprodutor do mundo alcançado na Modernidade, poder este que reveste o metal de sentido transitório e múltiplo, o que transmuta todos os desejos. Deixando em suspenso essa digressão, mas voltando o olhar para o ato da arbitrariedade e sua potência, haveria muito o que observar daí. Pois não é da arbitrariedade na contrução do sentido que se firma a arte, em oposição a construção da realidade e da vida? Até mesmo a teórica arbitrariedade do signos não é uma questão grave diante do processo cultural, enrigecido pela realidade concreta, de transformação das linguagens e dos significados socialmente possíveis? A dita arbitrariedade dos signos enfrenta o problema natural de um mundo em que a natureza dos objetos do mundo de tranformam em função da referencia humana. Nomear é dominar e tornar o mundo um objeto para o homem, para si. O sentido antinatural dos signos é dado como o trabalho humano de conhecimento do mundo, não está intrínseca e objetivamente relacionado aos objetos do mundo, mas os transformará profundamente. O texto poético, de uma literatura que se quer autônoma, reiventa o signo como se pudesse criá-lo livremente e, como linguagem, delimitar o seu universo próprio através de um código hermético desse mundo livre. Aqui, mais um largo passo: a sugestão de que a literatura, em geral, mimetiza a transformação do mundo, como pela Modernidade, a medida que procura abstrair todo o processo de produção dos sentidos, sendo essa a condição para demarcar suas fronteiras de arte. Em literatura, o sentido será sempre outro, transformado; porém possibilitado apenas pela imanência vital do sentido advindo da realidade. A condição de transformação é, exatamente, a de extrair a matéria que era viva em seu organismo original - a rede simbólica da sociedade - e compor com ela um outro ser, costurar algumas artérias e esperar que se mova. Essa vida emprestada traz marcas de sua encarnação anterior e é, por elas condenada a uma deformidade pertubadora à qual a realidade textual precisa se adaptar, disfarçar.
No poema, esse movimento da linguagem é captado enquanto se volta para si. Se, por um momento
"um silêncio verde" - Paul Celan
O
verde,
sua pele
ácida. Tocar
os poros
do verde, florir
metálico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, faisões
de cegueira.
Jóias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas mãos tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e não há mar,
nem pão, nem página.
Alucino-te
ao mirar-me
no silêncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacrais afogam-me
em tua lágrima
e se fecha a porta
esquerda.Toda palavra
me fere com sua dor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.
De pouco vale a sentença pronunciada de um trauma, ainda que fictício. Pouco ou nada, pois, como os traumas, a ficção guarda o segredo de sua existência no mais profundo vão da alma. Ou no trabalho dos sonhos.
E de que forma a racionalização é cúmplice do disfarce, ousaremos investigar?
Poderemos tão somente esquecer?
O que temos nos basta?
Se estes versos, por um lado, não seguem uma métrica padrão, ficamos reticentes quanto ao ritmo que impõem por força da retalhação das sentenças gramaticais. Assim que, logo nos primeiros versos, nos deparamos com um sintagma nominal cindido - artigo definido, em um verso, e seu substantivo, no seguinte. Vemos aí a experiência do sentido, não puramente perdida ou aspirada, mas, tampouco, abundante. O artigo isolado no primeiro verso é uma fratura na expressão, que fica praticamente desprovida de valor semântico, fratura não hesitante, já que não é acompanhada de qualquer sinal de pausa, mas verdadeiramente irônica; talvez, cínica, como se ostentasse no topo do poema a evidência da fragilidade da palavra, a sua impotência como significação, ou, furiosamente, a cabeça do vencido.
Porém o trofél erguido não está completamente sem vida. Vejamos...
É ensaiada, em seguida, uma série de imagens; a primeira é a da cor verde, que vem imediatamente a nós, como só as ideias chamadas simples e naturais, mas que é seguida de uma pausa (vírgula) que demanda apreciação. Aqui a palavra respira. Mansamente, transmite um significado inofensivo, calmo e indiscutível.
A apreciação imposta pela vírgula não cabe apenas a nós, como vemos no 3º verso, "sua pele". Há um eu-lírico no avesso da palavra "sua". Esta já é uma palavra mais grave, que reorganiza duas vezes o poema: além da coisa em si, existe o eu; além do eu, o outro. "sua" reorganiza, mas não se impõe; ligeiramente, anuncia outra ideia, "pele", que nos traz novamente uma ideia niveladora do mundo, como objeto sensível. O sentido de "pele" pode se aprofundar em "ácida", que se apresenta como quebra na cadência de imagens comuns estabelecida até então. O adjetivo "ácida" desperta o sentido adormecido de "pele", que pode, no poema, sentir, como toda pele ideal, ou ser fonte de sensações. Ainda assim, a"pele ácida" permanece reificada, disponível como o mundo sensível, mesmo que estranhada pela contravenção de sua acidez. As palavras se sucedem com mais liberdade no campo semântico franqueado entre "pele" e "verde", até nova pausa propiciando a apreciação da expressão ferina "florir metálico".
Este estranhamento já nos é familiar. Mas, ainda mais do que em "ácida", o adjetivo "metálico" transforma seu substantivo em algo alheio a sua natureza, suspeito e aflitivo. O sentido da palavra soergue-se da natureza conhecida, ou pretensamente segura, para perturbar o refugio - o verde que engedra e está florindo não deve ser o que se espera. Há algo aflitante que não será nomeado, mas cuja percepção oscila durante o poema como voz que se ouve "de asa e sombra" - ou seja, aberta e sonora ou fechada e surda. O que poderia florir, ou vicejar, foi subsumido ou desfigurado pelo adjetivo "metálico".
Lançando mão de uma maior arbitrariedade, podemos assumir que o "florir metálico" carrega uma conotação que existe à revelia da lei interna do poema. Esse sentido não foi totalmente apagado pelo texto, portanto, precisamos lidar com ele. Trata-se da carga simbólica sedimentada pela Modernidade ao sentido mágico que já havia, tradicionalmente, relacionado ao que é metálico, desde o mistério dos alquimistas até o poder assimilador e reprodutor do mundo alcançado na Modernidade, poder este que reveste o metal de sentido transitório e múltiplo, o que transmuta todos os desejos. Deixando em suspenso essa digressão, mas voltando o olhar para o ato da arbitrariedade e sua potência, haveria muito o que observar daí. Pois não é da arbitrariedade na contrução do sentido que se firma a arte, em oposição a construção da realidade e da vida? Até mesmo a teórica arbitrariedade do signos não é uma questão grave diante do processo cultural, enrigecido pela realidade concreta, de transformação das linguagens e dos significados socialmente possíveis? A dita arbitrariedade dos signos enfrenta o problema natural de um mundo em que a natureza dos objetos do mundo de tranformam em função da referencia humana. Nomear é dominar e tornar o mundo um objeto para o homem, para si. O sentido antinatural dos signos é dado como o trabalho humano de conhecimento do mundo, não está intrínseca e objetivamente relacionado aos objetos do mundo, mas os transformará profundamente. O texto poético, de uma literatura que se quer autônoma, reiventa o signo como se pudesse criá-lo livremente e, como linguagem, delimitar o seu universo próprio através de um código hermético desse mundo livre. Aqui, mais um largo passo: a sugestão de que a literatura, em geral, mimetiza a transformação do mundo, como pela Modernidade, a medida que procura abstrair todo o processo de produção dos sentidos, sendo essa a condição para demarcar suas fronteiras de arte. Em literatura, o sentido será sempre outro, transformado; porém possibilitado apenas pela imanência vital do sentido advindo da realidade. A condição de transformação é, exatamente, a de extrair a matéria que era viva em seu organismo original - a rede simbólica da sociedade - e compor com ela um outro ser, costurar algumas artérias e esperar que se mova. Essa vida emprestada traz marcas de sua encarnação anterior e é, por elas condenada a uma deformidade pertubadora à qual a realidade textual precisa se adaptar, disfarçar.
No poema, esse movimento da linguagem é captado enquanto se volta para si. Se, por um momento
– desde a primeira vez que lemos o verso "sua pele" – temos a impressão de que há, além do poeta, uma "personagem" em seu interlocutor; essa imagem, que é dotada de voz fragmentária, de olhos de aves selvagens, que são, por sua vez, de cegueira, e mãos que tateiam (também estas recebem e perdem o sentido de sua função imediata), é constituida dessas figuras, de maneira também fragmentária, revelando uma erotização da possível – para o leitor – mulher. Porém a possível mulher não se confirma em nenhuma concordância de gênero ao longo de todo o poema. Além disso, suas partes vão tecendo figuras independentes e contraditórias, que perdem sua lógica explicativa de sentidos humanos para oferecer uma imagem que não está disponível aos sentidos e, tampouco, à própria razão esclarecida, ideia esta condensada em "a nervura imprecisa da cicatriz/ e não há mar,/ nem pão, nem página./ Alucino-te/ ao mirar-me/ no silêncio/ de uma laranja/ quadrada.". O que pode a linguagem perante o fracasso da razão? São as abstrações de um corpo humano fetichizado por imagens "de irada divindade" as únicas capazes de transmitir essa vertigem da linguagem, que precisa ser desfuncionalizada de uma lógica positiva para dar conta da fratura epistemológica da realidade humana?
O verso "Aqui, nada mais viceja", traz uma visão displicentemente oposta a visão sensível do verso "verde,". Essa quebra anuncia uma atualização na linguagem e este é o primeiro verso que aparece contendo uma frase inteira. A completude da frase contrasta com o abandono de um sentido disponível. Há aqui uma divisória: chegamos no limite do objeto sem signo, o real irrascível, em que toda palavra é obsoleta. Desta divisória,
o primeiro momento é de sensações entrecortadas ou deformadas por uma natureza perecível e, ao mesmo tempo, artificial. O segundo momento abre espaço para a imagem do horror: "Lacraias afogam-me". A personagem comovida ("em tua lágrima") poderia ser qualquer ser, mas o objeto central deste poema se apresenta mais adiante: "Toda palavra me fere com sua cor.". E o interlocutor se funde ao eu-lírico na primeira pessoa do plural, ampliando qualitativamente sua brecha significativa. Não poderia ser, por exemplo, o próprio leitor a personagem a quem ele se dirige e procura alcançar; mas inutilmente, já que seu único contato com o poeta da cicatriz imprecisa passa por sentidos que também são tranfigurados pelo poema?
Não adianta. As partes desagregadas dessa personagem misteriosa não poderão nunca se juntar para a nossa compreensão. Mesmo assim, quando tudo o que resta ao ser no mundo é incomunicável pela via da razão, quando o canto e o poeta só poderim se calar, o poema se faz através da negatividade. Pelo corte. A linguagem poética recria o significado para si de forma análoga à produção superestruturante dos signos, que, no entanto, deixa de ser arbitrária e passa a ser automática. Para não se enrigecer também, a linguagem poética necessita explorar suas próprias lacunas, se alimentar do imponderável, perscrutar o silêncio... que poesia haveria, se não fosse Auschwitz?
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Consulte as estrelas & "Cena do cemitério"
Aos viajantes noturnos, cuidado. O olhar preso na estrada, as luzes velozes e ofuscantes vindo em direção contrária e ainda os fragmentos extraviados de uma conversa longínqua e monótona podem produzir o efeito hipnótico que tumultua alguns dados apresentados pela realidade
cotidiana em uma lógica simples, fluida e aparentemente inocente e que os metamorfoseia para imagens aberrantes, distorcidas, e perversamente conexas... assustadoramente naturais. É o mesmo princípio dos pesadelos - dos piores.
Mais cuidado ainda, quando os envolvidos na conversa são dois jovens médicos/acionistas brilhantes e prepotentes em início de carreira. Nada de estranho, repito, para o observador que tivesse ciência das bravatas dos futuros doutores que iam a 150 km/h para um destino promissor. Porém, de outra perspectiva, dentro do carro, sendo atirado nessa mesma velocidade sobre sentenças entrecortadas: diagnóstico... alta... reumatismo... baixa da bolsa... casos raros... falência múltipla... poli-queixume... avestruz máster... neurocirurgião... queda... geriatria... cubanos... crianças velhas... enfermaria...
"E daí?"
Bem, não pretendi reproduzir aqui o efeito que as faixas suicidas da rodovia tiveram sobre os rituais premonitórios desses ambiciosos curandeiros.
Não, quis apenas apresentar certos sintomas e sugerir um quadro clínico (que deve ser o pior possível) para que, então, façam bom uso do placebo a seguir:
Obs.: diferentemente de outros, este placebo é contra indicado para os que ainda crêem seriamente na cura, pois há certos medicamentos que serão bem ministrados apenas quando não se espera convalescença e quando a sanidade é a anomalia mais preocupante.
in A Semana - Gazeta de Notícias - 03/07/1894.
Fonte: A Semana - Machado de Assis - W. M. Jackson Inc. - 1946
Ortografia Atualizada.
cotidiana em uma lógica simples, fluida e aparentemente inocente e que os metamorfoseia para imagens aberrantes, distorcidas, e perversamente conexas... assustadoramente naturais. É o mesmo princípio dos pesadelos - dos piores.
Mais cuidado ainda, quando os envolvidos na conversa são dois jovens médicos/acionistas brilhantes e prepotentes em início de carreira. Nada de estranho, repito, para o observador que tivesse ciência das bravatas dos futuros doutores que iam a 150 km/h para um destino promissor. Porém, de outra perspectiva, dentro do carro, sendo atirado nessa mesma velocidade sobre sentenças entrecortadas: diagnóstico... alta... reumatismo... baixa da bolsa... casos raros... falência múltipla... poli-queixume... avestruz máster... neurocirurgião... queda... geriatria... cubanos... crianças velhas... enfermaria...
"E daí?"
Bem, não pretendi reproduzir aqui o efeito que as faixas suicidas da rodovia tiveram sobre os rituais premonitórios desses ambiciosos curandeiros.
Não, quis apenas apresentar certos sintomas e sugerir um quadro clínico (que deve ser o pior possível) para que, então, façam bom uso do placebo a seguir:
Obs.: diferentemente de outros, este placebo é contra indicado para os que ainda crêem seriamente na cura, pois há certos medicamentos que serão bem ministrados apenas quando não se espera convalescença e quando a sanidade é a anomalia mais preocupante.
Machado de Assis
A CENA DO CEMITÉRIO
1894, junho.
A CENA DO CEMITÉRIO
1894, junho.
Não mistureis alhos com bugalhos; é o melhor conselho que posso dar às pessoas que lêem de noite na cama. A noite passada, por infringir essa regra, tive um pesadelo horrível. Escutai; não perdereis os cinco minutos de audiência.
Foi o caso que, como não tinha acabado de ler os jornais de manhã, fi-lo à noite. Pouco já havia que ler, três notícias e a cotação da praça. Notícias da manhã, lidas à noite, produzem sempre o efeito de modas velhas, donde concluo que o melhor encanto das gazetas está na hora em que aparecem. A cotação da praça, conquanto tivesse a mesma feição, não a li com igual indiferença, em razão das recordações que trazia do ano terrível (1890-91).
Gastei mais tempo a lê-la e relê-la. Afinal pus os jornais de lado, e, não sendo tarde, peguei de um livro, que acertou de ser Shakespeare. O drama era Hamlet. A página, aberta ao acaso, era a cena do cemitério, ato V. Não há que dizer ao livro nem à página; mas essa mistura de poesia e cotação de praça, de gente morta e dinheiro vivo, não podia gerar nada bom; eram alhos com bugalhos.
Sucedeu o que era de esperar; tive um pesadelo. A princípio, não pude dormir; voltava-me de um lado para outro, vendo as figuras de Hamlet e de Horácio, os coveiros e as caveiras, ouvindo a balada e a conversação. A muito custo, peguei no sono. Antes não pegasse! Sonhei que era Hamlet; trazia a mesma capa negra, as meias, o gibão e os calções da mesma cor. Tinha a própria alma do príncipe da Dinamarca. Até aí nada houve que me assustasse. Também não me aterrou ver, ao pé de mim, vestido de Horácio, o meu fiel criado José. Achei natural; ele não o achou menos. Saímos de casa para o cemitério; atravessamos uma rua que nos pareceu ser a Primeiro de Março e entramos em um espaço que era metade cemitério, metade sala. Nos sonhos há confusões dessas, imaginações duplas ou incompletas, mistura de coisas opostas, dilacerações, desdobramentos inexplicáveis; mas, enfim, como eu era Hamlet e ele Horácio, tudo aquilo devia ser cemitério. Tanto era que ouvimos logo a um dos coveiros esta estrofe:
Era um título novinho,
Valia mais de oitocentos;
Agora que está velhinho
Não chega a valer duzentos.
Valia mais de oitocentos;
Agora que está velhinho
Não chega a valer duzentos.
Entramos e escutamos. Como na tragédia, deixamos que os coveiros falassem entre si, enquanto faziam a cova de Ofélia. Mas os coveiros eram ao mesmo tempo corretores, e tratavam de ossos e papéis. A um deles ouvia bradar que tinha trinta ações da Companhia Promotora das Batatas Econômicas. Respondeu-lhe outro que dava cinco mil-réis por elas. Achei pouco dinheiro e disse isto mesmo a Horácio, que me respondeu, pela boca de José: "Meu senhor, as batatas desta companhia foram prósperas enquanto os portadores dos títulos não as foram plantar. A economia da nobre instituição consistia justamente em não plantar o precioso tubérculo; uma vez que o plantassem era indício certo da decadência e da morte."
Não entendi bem; mas os coveiros, fazendo saltar caveiras do solo, iam dizendo graças e apregoando títulos. Falavam de bancos, do Banco Único, do Banco Eterno, do Banco dos Bancos, e os respectivos títulos eram vendidos ou não, segundo oferecessem por eles sete tostões ou duas patacas. Não eram bem títulos nem bem caveiras; eram as duas coisas juntas, uma fusão de aspectos, letras com buracos de olhos, dentes por assinaturas. Demos mais alguns passos, até que eles nos viram. Não se admiraram; foram indo com o trabalho de cavar e vender. - Cem da Companhia Balsâmica! - Três mil-réis. - São suas. - Vinte e cinco da Companhia Salvadora! - Mil-réis! - Dois mil-réis - Dois mil e cem! - E duzentos! - E quinhentos! - São suas.
Cheguei-me a um, ia a falar-lhe, quando fui interrompido pelo próprio homem: "- Pronto Alívio! meus senhores! Dez do Banco Pronto Alívio! Não dão nada, meus senhores? Pronto Alívio! senhores... Quanto dão? Dois tostões? Oh! não! não! valem mais! Pronto Alívio! Pronto Alívio!"
O homem calou-se afinal, não sem ouvir de outro coveiro que, como alívio, o banco não podia ter sido mais pronto. Faziam trocadilhos, como os coveiros de Shakespeare. Um deles, ouvindo apregoar sete ações do Banco Pontual, disse que tal banco foi realmente pontual até o dia em que passou do ponto à reticência. Como espírito, não era grande coisa; daí a chuva de tíbias que caiu em cima do autor. Foi uma cena lúgubre e alegre ao mesmo tempo. Os coveiros riam, as caveiras riam, as árvores, torcendo-se aos ventos da Dinamarca, pareciam torcer-se de riso, e as covas abertas riam, à espera que fossem chorar sobre elas. Surdiram muitas outras caveiras ou títulos.
O homem calou-se afinal, não sem ouvir de outro coveiro que, como alívio, o banco não podia ter sido mais pronto. Faziam trocadilhos, como os coveiros de Shakespeare. Um deles, ouvindo apregoar sete ações do Banco Pontual, disse que tal banco foi realmente pontual até o dia em que passou do ponto à reticência. Como espírito, não era grande coisa; daí a chuva de tíbias que caiu em cima do autor. Foi uma cena lúgubre e alegre ao mesmo tempo. Os coveiros riam, as caveiras riam, as árvores, torcendo-se aos ventos da Dinamarca, pareciam torcer-se de riso, e as covas abertas riam, à espera que fossem chorar sobre elas. Surdiram muitas outras caveiras ou títulos.
Da Companhia Exploradora de Além-Túmulo apareceram cinqüenta e quatro, que se venderam a dez réis. O fim desta companhia era comprar para cada acionista um lote de trinta metros quadrados no Paraíso. Os primeiros títulos, em março de 1891, subiram a conto de réis; mas se nada há seguro neste mundo conhecido, pode havê-lo no incognoscível? Esta dúvida entrou no
espírito do caixa da companhia, que aproveitou a passagem de um paquete transatlântico, para ir consultar um teólogo europeu, levando consigo tudo o que havia mais cognoscível entre os valores. Foi um coveiro que me contou este antecedente da companhia. Eis aqui, porém, surdiu uma voz do fundo da cova, que estavam abrindo. Uma debênture! uma debênture!
espírito do caixa da companhia, que aproveitou a passagem de um paquete transatlântico, para ir consultar um teólogo europeu, levando consigo tudo o que havia mais cognoscível entre os valores. Foi um coveiro que me contou este antecedente da companhia. Eis aqui, porém, surdiu uma voz do fundo da cova, que estavam abrindo. Uma debênture! uma debênture!
Era já outra coisa. Era uma debênture. Cheguei-me ao coveiro, e perguntei que era que estava dizendo. Repetiu o nome do título. Uma debênture? - Uma debênture. Deixe ver, amigo. E, pegando nela, como Hamlet, exclamei, cheio de melancolia:
- Alas, poor Yorick! Eu o conheci, Horácio. Era um título magnífico. Estes buracos de olhos foram algarismos de brilhantes, safiras e opalas. Aqui, onde foi nariz, havia um promontório de marfim velho lavrado; eram de nácar estas faces, os dentes de ouro, as orelhas de granada e safira. Desta boca saíam as mais sublimes promessas em estilo alevantado e nobre. Onde estão agora as belas palavras de outro tempo? Prosa eloqüente e fecunda, onde param os longos períodos, as frases galantes, a arte com que fazias ver a gente cavalos soberbos com ferraduras de prata e arreios de ouro? Onde os carros de cristal, as almofadas de cetim? Diz-me cá, Horácio.
- Meu senhor...
- Crês que uma letra de Sócrates esteja hoje no mesmo estado que este papel?
- Seguramente.
- Assim que, uma promessa de dívida do nobre Sócrates não será hoje mais que uma debênture escangalhada?
- A mesma coisa.
- Até onde podemos descer, Horácio! Uma letra de Sócrates pode vir a ter os mais tristes empregos deste mundo; limpar os sapatos, por exemplo. Talvez ainda valha menos que esta debênture.
- Saberá Vossa Senhoria que eu não dava nada por ela.
- Nada? Pobre Sócrates! Mas espera, calemo-nos, aí vem um enterro.
- Alas, poor Yorick! Eu o conheci, Horácio. Era um título magnífico. Estes buracos de olhos foram algarismos de brilhantes, safiras e opalas. Aqui, onde foi nariz, havia um promontório de marfim velho lavrado; eram de nácar estas faces, os dentes de ouro, as orelhas de granada e safira. Desta boca saíam as mais sublimes promessas em estilo alevantado e nobre. Onde estão agora as belas palavras de outro tempo? Prosa eloqüente e fecunda, onde param os longos períodos, as frases galantes, a arte com que fazias ver a gente cavalos soberbos com ferraduras de prata e arreios de ouro? Onde os carros de cristal, as almofadas de cetim? Diz-me cá, Horácio.
- Meu senhor...
- Crês que uma letra de Sócrates esteja hoje no mesmo estado que este papel?
- Seguramente.
- Assim que, uma promessa de dívida do nobre Sócrates não será hoje mais que uma debênture escangalhada?
- A mesma coisa.
- Até onde podemos descer, Horácio! Uma letra de Sócrates pode vir a ter os mais tristes empregos deste mundo; limpar os sapatos, por exemplo. Talvez ainda valha menos que esta debênture.
- Saberá Vossa Senhoria que eu não dava nada por ela.
- Nada? Pobre Sócrates! Mas espera, calemo-nos, aí vem um enterro.
Era o enterro de Ofélia. Aqui o pesadelo foi-se tornando cada vez mais aflitivo. Vi os padres, o rei e a rainha, o séqüito, o caixão. Tudo se me fez turvo e confuso. Vi a rainha deitar flores sobre a defunta. Quando o jovem Laertes saltou dentro da cova, saltei também; ali dentro atracamo-nos, esbofeteamo-nos. Eu suava, eu matava, eu sangrava, eu gritava...
- Acorde, patrão! acorde!
- Acorde, patrão! acorde!
in A Semana - Gazeta de Notícias - 03/07/1894.
Fonte: A Semana - Machado de Assis - W. M. Jackson Inc. - 1946
Ortografia Atualizada.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Inquietude
E por falar em contradição, delineia-se mais um riso sem graça, esquivo e desconfortável para qualquer inquisição: não sei por que estou escrevendo isto. Não é do meu feitio. Garanto que não acredito poder ostentar aqui palavras com peso e força de verdade. Nem esperaria voltar a escrever. De fato, se o fizer, será a confissão de um desequilíbrio sabiamente sonegado em conversas mais pessoais, descaradamente convertidas aqui em rodeios e parênteses sarcáticos - coisa permissiva demais para o tamanho do meu sorriso do tête-a-tête. Não gosto de vivenciar o sarcasmo e sinto estar emporcalhando mais este mundo, mesmo virtualmente. Não suporto o prazer disso. No entanto, admito que a ironia, dentro da ficção, proporciona algo de essencial. Algo de trágico, que não cabe nos parênteses e fustiga a calma cínica. A única função da arte, a confrontação de seus limites de transformmação na totalidade; que "deixa ver o que a ideologia esconde".
E por falar em necessidade, uma difícil de sustentar, é a de se defrontar, a de buscar um sentido verdadeiro para as palavras, para os sentimentos, para os atos e os acontecimentos que se perdem, ou melhor, se trocam pela vida a fora como se fossem acasos, coisas simples ou espontaneidades. carpe diem é uma cretinice sem tamanho, como o famoso "ou seja, cerveja". Pode haver alguma ironia verdadeira nisso? Nada é sério ou grave ou impiedoso, de onde virá o poder paralisante, antinatural, das coisas? Enquanto se tem um comentário espirituoso, podemos seguir vivendo a vida. Sendo engolidos pela contradição nivelada, sem tormenta. Sem esperanças. Cercados de paixões virulentas, escolhas amenas e um imensurável drama íntimo. A confrontação não está dada, tampouco o nosso dilema histórico. Mas o trabalho de disfarsar deixa resquícios e a redução estrutural promovida pela arte dá peso de agouro a esses sinais. Da pretensa liberdade do artista e autonomia da arte brota frágil ou pode ser arrancada alguma utopia. Contra todo cinismo e sarcasmo, essa é fagulha possível.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
E por falar em necessidade, uma difícil de sustentar, é a de se defrontar, a de buscar um sentido verdadeiro para as palavras, para os sentimentos, para os atos e os acontecimentos que se perdem, ou melhor, se trocam pela vida a fora como se fossem acasos, coisas simples ou espontaneidades. carpe diem é uma cretinice sem tamanho, como o famoso "ou seja, cerveja". Pode haver alguma ironia verdadeira nisso? Nada é sério ou grave ou impiedoso, de onde virá o poder paralisante, antinatural, das coisas? Enquanto se tem um comentário espirituoso, podemos seguir vivendo a vida. Sendo engolidos pela contradição nivelada, sem tormenta. Sem esperanças. Cercados de paixões virulentas, escolhas amenas e um imensurável drama íntimo. A confrontação não está dada, tampouco o nosso dilema histórico. Mas o trabalho de disfarsar deixa resquícios e a redução estrutural promovida pela arte dá peso de agouro a esses sinais. Da pretensa liberdade do artista e autonomia da arte brota frágil ou pode ser arrancada alguma utopia. Contra todo cinismo e sarcasmo, essa é fagulha possível.
- TABACARIA
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
- Álvaro de Campos, 15-1-1928
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