domingo, 5 de junho de 2011
A enxada cheia de metafísica
Mais uma morte no campo. A prática de esquecer vem nos aliciar, enterrando em cova mais funda a enxada que restava, nossa última esperança de conhecer o que existe sob nossos pés, o sentido de cada passo que se sucede. Jaz esquecida a lâmina que decepou nossa orelha (nossa, pois aos mortos não fará falta). Era um pedaço de mim que caiu por terra, que se perdeu em lama vermelha, e mesmo assim não me interessa a arma da lei de uns sós. Ela aparecerá mais adiante, quando outro membro for decepado. Meu também, pois a verdade é que tenho bilhões de orelhas. E o silêncio apenas cresce, avança por roçados, descampados e cidades, pelos céus, elevadores; das alturas já não vem promessas, nem trovões. Não há pão nem palavra para preencher esse espaço. O lapso na memória não pode mais ser vivido, é silêncio. Onde consigo uma enxada que desfaça esse encanto, que abra e revolva essa terra se ainda for tempo? Não há enxada. Cavando com as próprias mãos, nervos e ossos, Piano busca a música que deu princípio a esse sonho vão. Mas a melodia, resto orgânico do homem, apodrece nessa terra velha e ressecada de tanta amargura.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário