Ainda que as vozes que escuto venham de quartos subterrâneos, sei que elas são ecos sobreescritos de muitos séculos e isso, de alguma forma, serve para transformar o presente em memória arruinada.
Com um olho, vejo o destino típico da nossa raça e o trabalho, deus maior, esperando pela nossa redenção. Com o outro vejo a vaga sombra de um ser outro, do amor que não deixa, da pessoa que eu deveria ser, mais do que troços desgarrados.
Onde encontrarei meu eu lírico? Como desvendar esse ser que se constitui fragilmente numa sala de espelhos? Sendo autômatos, por que se movem da mesma forma essas figuras envidraçadas? Se são reais, por que seus olhos se deixam convencer pela ilusão de profundidade infinita?
O que a poesia de um desconhecido tem a ver com cada um de nós? A pergunta feita a uma turma de jovens internos de um centro reformatório de certa capital não surpreende nem causa confusão. O José de Drummond que se salve como puder e, se puder, que se livre da voz diabólica que ressoa "E agora?". Pois a literatura não oferece seu pomo a todos, não sem pedir algo em troca.
(Pensei que pelo menos o tempo dos enclausurados poderia ser disputado, mas os desejos pulsam rápidos, não deixando espaço para o outro... mesmo que este outro seja o"eu".)
Se isso não está dado, convém ir roubar, vivendo a utopia nas palavras de Jameson: "a poesia não deixa de existir quando acaba; ela só deixa de existir quando é plena".
Vivendo também ecos dessa vida da poesia na mística dos professores que se formam na luta:
"Hoje, ninguém mais sabe tocar a chaga aberta. Mas todos têm uma chaga aberta."
(turma de Licenciatura em educação no campo - Veranópolis)
- JOSÉ